Um Monge no Divã
A tragetória de um adolescer na idade média central


David Leo levisky
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David Léo Levisky: médico psicanalista, com longa experiência clínica no trato de adolescentes e acrescido recentemente do título de Doutor em História Social pela USP; Guibert de Nogent (1055-1125?): nascido de família nobre, morreu como monge beneditino de uma abadia pertencente à diocese de Laon.  David, brasileiro, propôs-se a aplicar a metapsicologia psicanalítica freudiana no estudo dos percalços vividos pelo monge entre o nascimento e a maturidade, com ênfase nos anos críticos do adolescere.  Guibert, francês, escreveu uma Monodiae (= canto em uma só voz), provavelmente em 1115,  espécie de “autobiografia” onde descreve todas as agruras de um nascimento traumático, de ter sido destinado a padre na infância e do cerco da parentela após o abandono da mãe, recolhida, viúva e muito assediada, a um convento. Havemos de convir que esse encontro inusitado entre um homem que viveu na transição do  século XI ao XII e um cidadão que vem vencendo a também transição do século XX ao XXI é, no mínimo, instigante. Até pela difícil questão metodológica em que a parceria implica: o “analisado” é um morto de oito séculos,  que não pode “responder” a possíveis questionamentos ou “mudar” o que quer que seja em seu relato;  o  “analista”  é o que corre o risco de aplicar a Psicanálise, ciência novíssima, a um texto medieval escrito em latim, com notícias de original e de manuscritos perdidos, hoje oferecido em tradução moderna, que, embora bilíngüe,  é, como se sabe, outro risco. Se o médico deve ser louvado pela bravura com que enfrentou as distâncias de toda ordem – plausível em tempos fecundos de interdisciplinaridades, principalmente no reduto das ciências humanas – não menor é o mérito do monge, que nos legou um belíssimo e também corajoso relato, onde desvela interstícios de sua intimidade e denuncia os desmandos a que foi submetido, num amplo painel de hábitos e costumes da época.  Documento, portanto, bifronte, que serve igualmente ao clínico e ao historiador.

O modelo evidente de Guibert são as Confissões de Santo Agostinho (obra composta em torno de 397), paralelo notório já desde a primeira linha do De vita sua, título por que ficou conhecida a Monodiae: “Confesso à tua grandeza, ó meu Deus, os erros de minhas inumeráveis falhas”. A partir daí, o monge prolífero, autor de outras importantes obras, compõe três longos livros: no primeiro, traça a história de sua vida;  no segundo, descreve as origens da abadia de Nogent;  o terceiro é dedicado à famosa revolta urbana de Laon, em 1112. A “autobiografia” do Livro I, examinada por David, nada tem a ver com o padrão celebrizado por Rousseau a partir do século XIX. Não se pode perder de vista que a “confissão” de Guibert é feita em uma sociedade e em um período histórico em que a noção de “indivíduo” está quando muito despontando – no âmbito literário, através do lirismo cortês ou da inventividade  de Chrètien de Troyes – fortemente regida pelas normas feudo-vassálicas e pelas diretrizes espirituais da Igreja. O emprego da primeira pessoa, na narrativa, não é critério suficiente para dizer da eventual liberdade do “eu”  que se mostra: ele é uma espécie de persona poética (já aparece nas poesias religiosas de meditação), porque, através da consciência particular,  expõe a exemplaridade da condição humana em busca da salvação. Tanto Agostinho quanto Guibert dão testemunho da Graça redentora, que sobre eles caiu a tempo de resgatá-los  das garras do Demônio.

Alvíssaras para David Léo Levisky, que em boa hora resolveu se aventurar pela Idade Média, com ganho do leitor;  bem haja Guibert de Nogent, que tornou tão próximo o longínquo Medievo Central,  ao refletir sobre o Homem e suas misérias.

Lênia Márcia Mongelli

 

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